domingo, 15 de fevereiro de 2009

Aumentam as dores! Não aumenta a reforma!

O velhote, sentado à mesa do café, enquanto com uma trémula, mas certeira, mão ia levando a chávena de café à boca e com a outra segurava um par de cajados, ironizava: “À noite é que são elas, os ais no quarto agora são outros! Ai, minha perna! Ai, meu joelho! Digo, eu. Ai, minhas costas! Ai, meus pés! Responde, ela. Vira para a direita, vira para a esquerda, as dores aumentam! Só não aumenta a reforma!”
Sem impor mágoa nas palavras, lá ia continuando o seu relato como que acomodado a uma ordem que é natural na vida. “O pior é que a minha senhora está a ver cada vez menos, isso é que é pior! Com dores ainda se faz o esforço de vir até aqui, agora sem “vista” é que é mais perigoso!”
Sorvido o café, olhou o céu com cumplicidade, puxou do seu saber empírico, fez saber as suas previsões climatéricas para os próximos dias e respondeu-me: “Até amanhã, minha senhora!”
“ Boas melhoras para os dois!” Retorqui, arrumando a cadeira à mesa.
“São oitenta e cinco anos, minha senhora!”
Já em andamento, não resisti em ser simpática para com ele: “Olhe que não parece! Está muito bem conservado!”
Ainda consegui ouvir algo que falou para dentro de si mesmo: “Conservado em trabalho! Em anos de trabalho!”

Comentários para quê?

3 comentários:

Sónia disse...

Realmente...comentários para quê? xD

Professorinha disse...

Os velhotes são o máximo quando começam a queixar-se... E quando se juntam muitos? É ver qual deles está mais perto de morrer... todos a contar sobre as suas doenças e qual delas é a mais grave...

Beijos

TuniKKa disse...

Velhos...retratos reais de toda uma vida!